Moro e trabalho em São José dos Campos há muitos anos, e existe uma história de tecnologia da nossa cidade que sempre me deixa orgulhoso quando alguém pergunta de onde ela veio. Falo da urna eletrônica, o equipamento que mudou por completo a forma como o Brasil vota e que em 2026 completa 30 anos, com uma origem muito mais próxima de nós do que a maioria das pessoas imagina.
Neste artigo conto como a urna eletrônica nasceu, o papel decisivo de pesquisadores do Inpe, do ITA e do então CTA, todos daqui do Vale do Paraíba, e por que essa tecnologia genuinamente brasileira segue sendo tema de debate até hoje.
Uma ideia antiga, um projeto que só decolou nos anos 1990
A vontade de automatizar o voto no Brasil não é recente. Ela já aparecia no Código Eleitoral de 1932, mas ficou praticamente parada por décadas. Foi só no fim dos anos 1980 que a Justiça Eleitoral deu um passo concreto, iniciando a informatização do cadastro nacional de eleitores.
O verdadeiro salto veio em 1995, já na gestão do ministro Carlos Velloso à frente do TSE, o Tribunal Superior Eleitoral. O país vinha de sucessivos problemas de apuração, principalmente em grandes centros urbanos, com denúncias de fraude e contagens que se arrastavam por dias. Foi esse cenário que levou o TSE a reunir uma comissão técnica nacional, com representantes das Forças Armadas, do Ministério das Comunicações, da própria Justiça Eleitoral e de pesquisadores especializados em computação e segurança digital, para desenvolver um equipamento capaz de resolver o problema de vez.
Os pesquisadores de São José dos Campos por trás do projeto
É aqui que a nossa região entra na história de forma decisiva. O equipamento desenvolvido nessa fase se chamava CEV, o Coletor Eletrônico de Votos, considerado o protótipo direto da urna eletrônica que conhecemos hoje. E parte importante da equipe técnica era formada por pesquisadores ligados ao Inpe, ao ITA e ao então CTA, hoje DCTA, todos sediados em São José dos Campos.
Esse grupo ficou conhecido nos bastidores do projeto como "os ninjas", e reunia nomes como Paulo Nakaya, Mauro Hashioka, Giuseppe Janino, Oswaldo Catsumi e Antônio Ésio Salgado, o "Toné", professor do Departamento de Informática da Unitau e pesquisador associado ao Inpe. Segundo relatos do próprio Toné, o Inpe já vinha de uma parceria anterior com a Justiça Eleitoral, dentro de um projeto apoiado pelo Programa das Nações Unidas para melhorar o sistema informatizado do TSE, cuidando de comunicação de dados e especificação de equipamentos. Quando o ministro Carlos Velloso decidiu acelerar o projeto da urna, a equipe do Inpe já estava a postos, com dois anos de experiência acumulada dentro do próprio Tribunal.
Fontes sobre a origem do projeto
1996, a estreia da urna eletrônica nas eleições brasileiras
A primeira eleição com o novo sistema aconteceu nas eleições municipais de 1996. Cerca de 32 milhões de brasileiros votaram em aproximadamente 70 mil urnas, distribuídas em 57 cidades do país. A logística foi tão grande que a própria Força Aérea Brasileira precisou ajudar no transporte dos equipamentos até os locais de votação.
Vale lembrar como era o processo antes disso. A apuração manual podia levar dias ou semanas, cédulas eram rasuradas, votos desapareciam e as urnas de lona corriam risco de extravio ou substituição. Com a urna eletrônica, a totalização passou a acontecer em poucas horas, reduzindo drasticamente a interferência humana na contagem. De lá para cá, o crescimento foi enorme, nas eleições municipais de 2024 mais de 153 milhões de eleitores votaram em cerca de 570 mil urnas espalhadas por 5.569 municípios, o que faz do Brasil o responsável pela maior eleição totalmente informatizada do mundo.
Segurança, ataques e o debate sobre o voto impresso
Como toda tecnologia relevante, a urna eletrônica nunca deixou de ser questionada. Nos últimos ciclos eleitorais, pesquisa do Projeto Confia, do Pacto pela Democracia, apontou que mais de 45% dos conteúdos falsos compartilhados sobre eleições tinham como alvo justamente o funcionamento das urnas. Ao mesmo tempo, o sistema foi sendo reforçado ano após ano, e hoje conta com cerca de 30 camadas de segurança, entre criptografia, assinaturas digitais, rastreabilidade de arquivos e proteções físicas e digitais.
Toné, um dos pesquisadores que participou do projeto desde o início, resume bem esse cenário em entrevista à rádio CBN Vale, ao dizer que existem dois tipos de ataque à urna, os feitos por pessoas tecnicamente preparadas, que ajudam a evoluir o sistema, e os feitos por quem não conhece o contexto completo do processo eleitoral brasileiro. Segundo ele, a falta de informação sobre os mecanismos de auditoria, como o Teste Público de Segurança, o teste de integridade das urnas e as cerimônias de lacração acompanhadas por partidos, Ministério Público, Polícia Federal, OAB e universidades, ajuda a alimentar desconfianças que poderiam ser facilmente esclarecidas.
Sobre o debate do retorno do voto impresso, ele é direto, a urna eletrônica está preparada para imprimir um comprovante, mas não faz sentido contar esse papel e usar o voto eletrônico apenas para conferência, isso seria um retrocesso em um mundo onde bancos, comércio e governo já funcionam de forma totalmente digital. Para ele, a urna mantém a mesma aparência de sempre por fora, mas é constantemente modernizada por dentro, incorporando novos mecanismos de defesa à medida que novos tipos de ataque surgem.
Concordo totalmente com a visão do professor Toné. Aliás no meu Mestrado em Computação Aplicada, tive a oportunidade de participar de disciplinas sobre segurança de redes e sistemas distribuídos em que ele e o professor Mauro Hashioka foram professores e posso afirmar que são muito competentes e sabem o que fazem. Ademais participei como presidente de seção de uma eleição na década de 1990 e pude entender perfeitamente todo processo.
As urnas são auditáveis, seguras e confiáveis. Além disso, ficam offline durante todo o processo de votação. No início do processo são impressas as "zerésimas", que comprovam que a urna não possui votos e está tudo limpo. Durante a votação, o equipamento não se conecta à internet e não há possibilidade de acesso remoto. Ao final de uma votação, o presidente da seção eleitoral deve digitar a senha que fecha a urna e impede o recebimento de mais votos. Neste momento, ele imprime cinco boletins de urnas que contabilizam todos os votos que o equipamento recebeu, devidamente criptografados e embaralhados, para que se preserve o sigilo do voto. Feito isso, ele coloca a urna na sua caixa original, e segue num veículo oficial da justiça eleitoral até o cartório eleitoral, onde os boletins de urna são conferidos e enviados para o TSE. Durante todo o processo, o presidente da seção é monitorado por fiscais de partidos, Ministério Público, Polícia Federal, OAB e universidades. Além disso, 5% das urnas são sorteadas para auditoria, onde os votos impressos são conferidos com os boletins de urna.
Enfim, é extremamente importante entender que seria absurdamente difícil alterar os resultados de uma eleição, especialmente de um candidato específico, sem que isso fosse detectado. A urna eletrônica é um equipamento seguro, confiável e auditável, e a tecnologia brasileira por trás dela é motivo de orgulho para todos nós. Isso posto, acho um absurdo que pessoas que não conhecem o processo eleitoral brasileiro, e nem mesmo a tecnologia por trás da urna, façam afirmações sem fundamento sobre a segurança do sistema.
Fontes sobre segurança e o debate atual
Por que essa história importa para São José dos Campos
Trabalhando com tecnologia e inovação há mais de 30 anos, entendo bem o quanto histórias assim costumam ficar esquecidas, mesmo quando têm origem na nossa própria cidade. A urna eletrônica é um bom lembrete de que São José dos Campos não é apenas berço da indústria aeroespacial, é também um polo de pesquisa em computação e segurança digital que ajudou a resolver um problema nacional de décadas, com tecnologia genuinamente brasileira e hoje referência internacional em rapidez, auditabilidade e segurança eleitoral.
A história da urna eletrônica mostra o que São José dos Campos é capaz de produzir quando pesquisa, tecnologia e um bom propósito se encontram. Eu ajudo empresas da região a usar essa mesma lógica no dia a dia, aplicando tecnologia e inteligência artificial de forma segura e estratégica.
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Perguntas Frequentes sobre a Urna Eletrônica
Quando a urna eletrônica foi criada e quem participou do projeto?
O projeto ganhou força em 1995, durante a gestão do ministro Carlos Velloso na presidência do TSE, com o desenvolvimento do CEV, o Coletor Eletrônico de Votos. Pesquisadores do Inpe, do ITA e do então CTA, atual DCTA, todos de São José dos Campos, participaram diretamente da criação do equipamento, ao lado de especialistas das Forças Armadas e da Justiça Eleitoral.
Quando aconteceu a primeira eleição com urna eletrônica no Brasil?
A estreia aconteceu nas eleições municipais de 1996. Cerca de 32 milhões de brasileiros votaram em aproximadamente 70 mil urnas distribuídas em 57 cidades do país, em uma operação que contou até com apoio da Força Aérea Brasileira para o transporte dos equipamentos.
A urna eletrônica é segura?
Os sistemas eleitorais brasileiros possuem hoje cerca de 30 camadas de segurança, entre criptografia, assinaturas digitais, rastreabilidade de arquivos e proteções físicas e digitais. O sistema passa por Teste Público de Segurança, teste de integridade e cerimônias de lacração acompanhadas por partidos, Ministério Público, Polícia Federal, OAB e universidades.
Por que a urna eletrônica é associada a São José dos Campos?
Porque parte decisiva da equipe técnica que desenvolveu o Coletor Eletrônico de Votos, embrião da urna atual, era formada por pesquisadores ligados ao Inpe e ao ITA, instituições sediadas em São José dos Campos. Esse grupo ficou conhecido nos bastidores como os ninjas do projeto.
LUÍS MARCELO ACHITE
Mestre em Computação Aplicada
Especialista em Engenharia de Software
Especialista em Inovação em Unidades de Informação
Consultoria de TI e Marketing Digital, São José dos Campos, SP
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